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A Minha Aldeia

por José P. Santos, em 02.11.16

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A minha Aldeia de Belarmino Batista


Corria a década de 1950/60; nesta Pátria ao longo do Oceano Atlantico, no país mais ocidental do continente Europeo, vivia -se em relação ao mesmo 30, 40 ou 50 (?) anos atrasado. Vivia -se do que se tinha !Nas poucas grandes urbes, ia-se vendo qualquer coisa de novo, como novos edificios, arruamentos com novas urbanizações, alguns milagres da técnica que vinham de <fora>, tais como automoveis, radios transistores e por ultimo a televisão, etc. Mas nestas Beiras do interior, no norte Transmontano e Alentejo, vivia-se num mundo qualquer coisa como nos tempos mediévais. A propria aparência destes povoados assim o demonstrava.Vivia-se na escuridão, apenas quebrada pelos raios de luz do virginal azeite. Informação !… Cultura !… Como ? As proprias ondas da então Emissora Nacional, chegavam atrofiadas, (não havia os emissores regionais) onde havia electricidade e as numerosas povoações rurais do interior não a tinham.Jornais ? Impossivel ! Quem sabe ler ? E hàbitos de leitura ? E dinheiro para a mesma ? Vivia-se do que a terra dava e nada mais. Cultivava-se a terra para se sobreviver.Nestas Beiras do interior assim como todo o Norte, salvo algumas pequenas excépções, não existe a generalização da grande propriedade assim quase todas as pessoas possuiam um pouco de terra, herança dos seus antepassados. Terra que não dà para nada, mas que chega para se entreterem plantando umas couves, semeando umas batatas, feijão, milho, etc. Assim bocadito aqui, bocadito ali, disperssos uns dos outros por alguns kms de distãncia, assim ia mourejando este povo das provincias interiores ocupando-se toda a familia, mulher e filhos, numa azáfama para arranjar qualquer coisa com que entreter o estômago ao longo do ano. Assim se criava um porco, se tinha uma cábra para se não comerem só legumes e cereais. Tambem haviam umas oliveiras para darem uns litros de azeite que eram poupados para darem para todo o ano.O chefe de familia de vêz em quando dava uns dias de ajuda ao <senhores> da terra que tinham mais uns predios e assim poder arranjar alguns escudos para fazer face a alguma despesa imprevista que aparecesse ou a uma doênça.Só compravam o jornal a Sra. Professora e algum comerciante, não todos, mas só quando iam à “Vila,” nome dado à cidade da Covilhã, sede do concelho.O Pàroco tambem o recebia, das autoridades eclesiásticas. E era tudo. Ambições ? Quem as poderia ter ? Que futuro ? Assistência médica ? Quando alguem adoecia ? Um burro bem aparelhado, com cobertor a tapar misérias, doente em cima do animal, outra pessoa guiando o mesmo (porque aqueles caminhos eram diferentes dos que o animal percorria todos os dias e jà conhecia de olhos fechados) e assim se alcançava o Médico a uma dezena de kilometros de distãncia, depois de 2 ou mais horas de caminho à mercê dos caprichos climatéricos.Ou então esperava-se pelo Sr. Doutor (se as circunstancias do doente o permitissem) que visitava as povoações mais ou menos semanalmente, trabalhando em cima de uma mesa, dando ingeções e observando os doentes à luz da candeia. Mas esta regalia nem todas as povoações a tinham.A minha aldeia tinha-a graças ao serviço do médico duma aldeia vizinha, do Paul, que visitava as aldeias proximas usando o seguinte sistema.A esse doutor pagavam as gentes da aldeia uma tença de armonia com o agregado familiar, por exemplo um alqueire (20 litros)de milho, ou de azeite (12 litros) por ano para beneficiarem dos seus serviços.Tal como nos tempos medievais. Assim se vivia do que havia. A maioria das pessoas usavam os productos da terra, como forma de pagamento. De uns tantos em tantos anos, (pelas eleições) apareciam uns <Senhores da Vila> que vinham até ás aldeias e a quem faziam umas grandes festas, mostrando-se-lhes o melhor que havia (?).Ocultando-se-lhes o pior; casas em ruinas, mas habitadas, onde se criavam familias nas piores condições sanitárias, ruas com estrumadas, que sem as mesmas eram intransitáveis no inverno e em que o estrume era necessario para a lavoura, pois para adubo químico não havia dinheiro, nem por vezes tão pouco quem o vendesse. Era nesta altura tambem que a rua principal era varrida.Depois da visita desses <Senhores> ficavam algumas iluzões!!!As pessoas à noite, reunidas na taberna à luz do petroleo ou do gazómetro, vaticinavam: Será desta que arranjam a rua ? Que vem a electricidade ? Esgotos ?…
Isso era fino de mais para falarem em semelhante coisa.Passado algum tempo era enviada para o Sr. Presidente da Junta, uma brilhante placa de mármore, com o nome de um desses <Senhores> para ser colocada no largo principal da povoação, que ficaria a ter o seu nome. E era tudo. Melhoramentos? Talvez para a proxima, diziam as pessoas.Nestes largos normalmente existia um chafariz que fornecia àgua à povoação e um tanque onde os animais iam beber, mas que infelizmente, na maioria dos casos, só dáva àgua no Inverno e pouco mais.No Verão, quando ela era mais precisa, não chegava lá, ou era em tão pouca quantidade que as pessoas tinham que passar horas e horas e por vezes a noite, para conseguir uma vasilha ou duas do precioso lìquido.Esse largo mais parecia uma feira de vasilhas de toda a espécie, ou uma multidão no deserto à espera do maná.Aquele pequenino e precioso caudal de àgua, era disputado por todos com o rigor da sobrevivencia. Alteravam-se os ânimos, as mulheres discutiam e os cântaros de barro partian-se, ou os de chapa amachucavam-se, alvoraçava-se a povoção com o barulho da discussão.Havia gargalhada com fartura pelos que presenciavam em redor; um espectáculo triste, mas que era o unico a que se podia assistir nestas aldeias. Assim se passava o tempo e se perdiam noites para se conseguirem uns míseros litros do precioso lìquido. Infelizmente esta situação ainda hoje se mantem em muitas povoações, embora com menos aquidade do que antigamente.Entretanto as pessoas iam contemplando a brilhante <placa> ali mandada colocar mesmo por cima do chafariz, pelo Presidente da Junta, homem paciente e conservador, um pacífico cidadão que vivia do seu pequeno estabelecimento e algumas propriedades que os seus antecessores lhe tinham deixado, ou duma reforma alcançada ao longo de muitos anos de trabalho numa ocupação do Estado, como cantoneiro, Policia, GNR. etc.Este tipo de cidadão era o preferido para os cargos oficias nas aldeias. Assim se ia vivendo nestes pequenos povoados, e tantos hà, nestas outrora terras de Viriato. Este era o panorama geral do país rural, das pequenas aldeias, mais propriamente do <interior>.


Entretanto no início da década de 1950, começavam a aparecer os primeiros edificios de escolas novas, começou-se a expandir mais o ensino primário; nota positiva, embora tardia, desta época. E esta nova geração começava pelo menos a saber ler e escrever, coisa que os nossos pais não sabiam.Depois de terminados os quatro anos de escolaridade obrigatoria, onde se aprendiam os basicos ensinamentos do ler e escrever (os unicos que adquiri e possuo oficialmente) por vezes graças ao brio profissional de alguns professores/as, dentro de limitadas condições, sem material pedagógico proprio e adequado e sobrecarregados com alunos de diferentes classes, assim apareceu a nova geração dessa época
(na qual me incluo) disposta a tentar viver uma vida mais digna. Mas que fazer ? Dores de cabeça para os pais. A vida na aldeia não dá futuro; ficar-se ali seria ficarmos condenados ao mesmo marasmo em que viviam os nossos pais. Tal como eu, que entretanto tinha saído da escola com a instrução primària, só havia um caminho a seguir: Deixar a aldeia e tentar a vida na cidade, optando-se na maioria dos casos pela grande Lisboa. Outras cidades da provincia, proximas da nossa terra de origem, eram tentadas mas, como maior ponto de atração era a grande Lisboa.Mas como lançar uma criança da aldeia, na cidade, onde não se conhece nada ou quase ninguem ?Era problema de dificil solução para esses pais que desejavam proporcionar um futuro melhor para os filhos.Um familiar ou parente ou amigo, (quem os tinha!) era contactado na capital, para onde era enviada a criança com os seus doze ou treze anos de idade acompanhada de alguns productos agricolas , um saco de batatas ! um garrafão de azeite! sei lá! Qualquer coisa do que havia na aldeia e se podia dispôr.Que mais poderiam dar estes aldeões? Chegados à cidade, que fazer ? Marçano; empregado numa taberna ; carvoaria, etc.


Aí se comia e dormia e se amealhavam alguns poucos escudos, que mal davam para o vestuario, trabalhando desde as 6 da manhã até as11... meia noite, sem dias de folga, sempre no mesmo ambiente de taberna, houvindo o relato do futebol aos domingos para quebrar a monotonia, enquanto se serviam os copos de <três>, coisa que para nós crianças duma aldeia onde não havia electricidade, era jà um passatempo, o ùnico que nos era proporcionado... ouvir o relato da bola. Quando recebiamos carta dos nossos pais, nós crianças ainda a necessitar do carinho da nossa mãe, os nossos olhos enchião-se de lagrimas lembrando a pequena aldeia onde fomos criados atè então e tinhamos os nossos amigos, as nossas recordações de infancia e os que nos eram queridos. Assim, pobres crianças enfrentava-mos cêdo o drama da imigração e a separação dos <nossos>. Ali não encontravamos a palavra meiga da nossa mãe ou o sorrizo inocente e belo dum pequenino irmão, que deixámos no berço e com quem brincavamos ainda, nem as carícias ternas dos nossos avós. Ali encontravamos sim as palavras ásperas dum patrão que as seis da manhã nos acordava pondo-nos o corpo a descoberto, dizendo: vamos là levantar rapaz ! que são horas!… Assim se passavam os primeiros anos da nossa mocidade. Assim convinha aos proprietarios destes estabelecimentos que encontravam mão de obra barata e que alguns, faziam destes pobres moços quase uns escravos; e digo quase porque, a escravidão não era praticada oficialmente. Na aldeia, quantas vezes os nossos pais eram explorados no mesmo sistema, pelos <senhores> das grandes propriedades. Assim se vivia e embora com dificuldades, muitos iam deixando as aldeias em busca de uma vida mais digna , nas grandes cidades. Ai se formavam os chamados “ Bairros da Lata”, verdadeira miséria, onde os pobres aldeões iam viver…em piores condições do que por vezes na sua propria aldeia. Porem havia trabalho e algum dinheiro e a possibilidade de conseguir um futuro melhor para os filhos. Havia a esperança de um dia conquistar uma vida melhor e abandonar aquele Bairro da Lata. Quando? Talvês nunca!... Mas havia a esperança!… Muitos outros tinham vindo e conseguiram alguma coisa.
Não hà que desanimár. Assim diziam e faziam.

Belar Batista Relembrando o passado .

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publicado às 13:27




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