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Infância Vivida na Aldeia do Peso

por José P. Santos, em 04.04.15

 

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Autoria do Pesense:

Belarmino Batista

Emigrante no Canadá

 

PESO 1945

 Ainda me Lembro!

Escolhi este título para esta serie de escritos

Sobre o Peso do meu passado

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PESO 1945

 Ainda me Lembro!

Escolhi este título para esta serie de escritos

Sobre o Peso do meu passado

  I                                        

Foi á muitos anos atrás… quando a minha  memória começou a fixar as coisas que via, talvez á volta dos meus 5 ou 6 anos. Lembro-me que era uma manhã risonha, com orvalhada,   mas com sol quentinho; tinha dormido em casa dos meus avós maternos, o que fazia frequentemente, pois eu era o seu primeiro neto.                                            

Ainda me lembro… o meu avô aparelhou um jumento que tinha, com uma tosca albarda, e pôs-me cima do animal, mesmo em frente á Igreja, onde moravam e resolveu levar-me com ele. Foi a primeira vez que montei num animal, por tão longa viagem.  Fomos até ao sítio do Barrocão ou Barroca das Canas, não posso precisar, há volta de 5 ou 6 km, pelos velhos caminhos de então, por meio de pinhal e mato, uma verdadeira aventura para uma criança da minha idade; talvez daí a razão do que vou contar e eis o principal cenário  que continua vivo na minha mente e o motivo por que escrevo esta crónica.

Ainda me lembro… que ao sair do povoado, no sítio dos Barreiros, quando os casebres da minha aldeia, (sim... casebres) na altura chamávamos-lhe casas, já tinham ficado para traz  e comecei a avistar a natureza. Ao meu lado esquerdo, pinhais; ao meu lado direito, o sol que há pouco tinha nascido, as vinhas, um chão de  terra cultivado que por sinal era de meu avô paterno e ouvi o canto das aves naquela manhã, que (hoje sei) era de Primavera, ainda me lembro… do caminho marcado pelos fundos  rodados dos carros de bois; e gostei tanto daquela paisagem e daquele contacto com a natureza, que não sei porquê, as minhas retinas de criança, fixaram e gravaram para sempre na minha memória, aquele cenário, para o resto da minha vida.

Na minha mente de criança, penso hoje, se existe o paraíso, seria aquela paisagem, aquele envolvimento com a natureza, naquele ambiente rural, naquela idade do desabrochar para a vida…visto por uma criança.   Como eu gostaria de saber transmitir numa tela, estas imagens de infância que ainda guardo na minha mente.  Ao ouvir os diferentes cantos das aves, perguntava ao meu avô e ele me dizia… é o rouxinol, é o pintassilgo, etc., isto ao longo dos olivais e terras de cultivo. Ao avançar para os pinhais, o canto das aves já era outro; o cuco e o gaio, este ultimo lembro-me ter visto alguns… de criança, não talvez nesta minha primeira aventura, pois na minha memória ficou mais acentuada aquela  imagem da saída da povoação e o contacto com o espaço aberto e para mim, grandioso da natureza.

Não me lembro muito do resto da jornada, apenas que o animal comia umas folhas de milho seco (canas, como lhe chamavam na minha aldeia) que o meu avô tinha levado entaladas na albarda do animal. E a mim, deu-me também qualquer coisa  para comer que minha avó me tinha mandado. 

Ainda me lembro… que ficamos num pequeno talhão de terra  de cultivo, á beira do Ribeiro, que hoje sei é o do Braçal, que nasce a centenas de metros na serra que chamamos do Penesinhos.    Hoje… percorrendo o mesmo trajecto (paraíso) de á  55 anos, o que fiz á alguns anos atrás, o caminho hoje é rua, é diferente; desapareceram os vestígios dos animais de carga e os rodados dos carros de bois, as casas hoje podem-se chamar casas, (não casebres) mais bonitas e confortáveis, mas  as  aves… essas desapareceram; o seu cantar foi substituído pelo som da rádio e as terras que outrora estavam bem cultivadas, qual jardim do paraíso está abandonado; e na montanha, o pinhal oferece uma imagem desoladora; paisagem de terra queimada, (dos fogos do verão).     O paraíso da minha infância, da memória  a desabrochar para o mundo, como aquela manhã de Primavera…desapareceram… mas enquanto eu viver, ainda me lembro…   Á coisas que nunca esquecem… e outras por serem das primeiras  que o nosso cérebro guarda, quando começamos a tomar consciência do que existe á nossa beira, ficam-nos gravadas para sempre nessa calculadora maravilhosa a que chamamos memória e vão e vêm á nossa mente para o resto da nossa vida. Esta é uma delas.

Ainda me lembro… nas horas de nostalgia… cá longe… na  emigração.   

B.Batista .Agosto. 78  

II

Ainda me Lembro!!!

1947/48

Os anos dos pós guerra

Nascido no Peso em 1939, ano em que começou a II   guerra mundial (39/45) escusado será dizer que foram anos difíceis para toda a Europa.

Ainda me lembro que o Peso, era uma aldeia como tantas outras  de uma fisionomia rural e agrícola, mas com a particularidade de estar ligada á industria de lanifícios através da tecelagem, sendo esta industria uma das bases de sustento de muitas famílias.   Não me lembro muito bem das grandes vicissitudes da  mesma, no que toca á falta de básicos géneros alimentícios, como pão e mercearias, devido ao facto de meus pais e avós terem mercearia e padaria. Mas ainda me lembro de ver filas de pessoas no pátio da padaria de meus avós paternos, à espera para lhe venderem pão, o que era feito através de um postigo com grades. Sei hoje que muitas dessas pessoas vinham de longe, das terras do sul do Zêzere como Barco, Paul, Ourondo e até de Silvares e S. Martinho. Chegavam durante a noite, para de manhã poderem apanhar o precioso pão, que alguns iam vender depois nas suas terras a preço mais elevado.

I

Deste facto tive conhecimento já aqui em Vancouver, por pessoas que participaram nesta “realidade”que afinal iam ao Peso buscar pão e hoje sei era a padaria de meus avós  Foram tempos de dificuldades que se viviam nesta época, nestas aldeias rurais das Beiras e não só, dificuldades estas que se prolongaram por mais de duas décadas, até que surgiu a emigração para França, nos princípios de 1960/65.

Havia racionamento para muitos géneros de consumo, como pão, açúcar, arroz, sabão, etc. e lembro-me de meu pai, me pôr a cortar cupões de cadernetas que eram distribuídas pela então, IGA (Intendência Geral de Abastecimentos) todos os meses aos comerciantes. Esta entidade estatal, regulava os abastecimentos de géneros de consumo básico ás populações. Assim conforme o número de pessoas do agregado familiar, era-lhes atribuído uma certa quantidade desses produtos, que os comerciantes iam levantar aos armazéns da sede de concelho. Algumas dessas famílias com maior numero de  filhos e que portanto tinham acesso a mais uns quilos desses produtos, por vezes, por falta de dinheiro, vendiam esses géneros a outras pessoas que melhor os podiam comprar.

Por alturas de 1955/60 as Paróquias recebiam igualmente farinha americana e canadiana, doada pela “Caritas” uma organização internacional de apoio aos países pobres, (sim Portugal estava classificado como tal) para ser distribuída pelas pessoas com mais necessidade nas aldeias, o que nem sempre acontecia. Parte dessa farinha era vendida ás padarias, desculpem esta revelação, mas isto faz parte da história do nosso povo  porque era farinha “especial” e bastavam uns 10 a 15 kg  num saco de 75 kg para se fazer um pão de muito melhor qualidade e apresentação, já que a farinha fornecida ás padarias era uma mistura de trigo, fava e feijão frade (pequeno).

Quem se lembra ainda dos famosos pães de testa (5$00).

 Os primeiros automóveis do Peso

Foi no início da década de 1950 que vieram para o Peso os primeiros automóveis, por via da indústria de panificação.

Havia no Peso duas padarias importantes para a área do “Rio”:

A de meus avós, Belarmino Batista & filhos.

E a dos Irmãos Pires (Abílio, Ângelo e José.)

Nesta época de falta de géneros alimentícios, ter uma mercearia ou principalmente padaria era uma vantagem económica que não se podia ignorar. Assim estas duas famílias tentaram expandir e com certo êxito, esta oportunidade.

 Assim se adquiriram os primeiros automóveis para o Peso, para a distribuição do pão pelas terras vizinhas, que até então era feita com carroças puxadas por cavalos e machos.  Em muitas aldeias não havia padarias, ou se havia, eram apenas exploradas nas mesmas. Não nos esqueçamos que nesta época as aldeias eram mais povoadas do que actualmente.  Embora vivendo-se com dificuldades, havia nelas “‘vida”, comparado com esse tempo, hoje são quase aldeias “fantasmas”.

No caso de meu avô, comprou-se um “Nash” dos célebres modelo T que era posto a trabalhar com uma grande manivela. Tiravam-se os bancos de traz, já que a mala traseira era bastante pequena, mais parecida com um baú e assim enchia-se o espaço, com o pão que era posto dentro de grandes cestos de verga e em cima dos mesmos.

O pão desta época era na maioria, unidades de 1 kg, kg e meio e do tamanho de um prato. Usava-se o pão de testa, o centeio e o pão de milho, (mais conhecido por broa)   a (5$00) e igualmente o de 1kg ($3.30). Menos usado era o pão “fino” assim lhe chamavam, que consistia de regueifas (4$80), carcaças ou pão de quartos (1$60) e os celebres papossêcos ($0.40), que chegaram aos nossos dias.

Esse pão era distribuído pelas aldeias do “rio”como Coutada, Barco, Paul, Ourondo, Casegas, Sobral e para o lado norte, Erada, Unhais, Cortes e até á isolada Bouça. Onde não havia estrada e era enviado um robusto cavalo, pelo comerciante, que transportava 3 cestos de pão, para ser revendido no único estabelecimento da povoação. Alguns anos depois tentava-se a zona industrial do Tortosendo, Covilhã e as inúmeras quintas ao redor.

No  caso dos Irmãos Pires, passado algum tempo adquiriram também um automóvel, (género de furgoneta) para o mesmo efeito, lembro-me que tinha os lados de madeira ou imitação e já mais moderno. Não me lembro da marca; (Austin?)

 Assim a indústria de panificação do Peso era conhecida, por toda a Cova da Beira.

Gerou-se até como é óbvio, uma certa animosidade entre as duas famílias, ao interferirem nas zonas económicas uma da outra. Era a luta pela sobrevivência.

Existiam ainda, que eu me lembre, dois fornos de coser pão para o povo, o da Ti Ana Poiares e outro...(?)   funcionando no sistema de “maquia”.    Maquia era a forma de pagamento das pessoas pelos serviços prestados.  Assim pagava-se o uso do forno com o mesmo pão, consoante a quantidade de pão cosido.

Pagava-se uma "cota" com produtos da terra, como milho e azeite, ao barbeiro, aos barqueiros para a travessia do Zêzere.  O mesmo acontecia com o Doutor.   (vejam a introdução nos meus escritos de”O salto”).  O pagamento da côngrua ao Padre, era igualmente feito com os mesmos produtos.  O dinheiro era um “bem” secundário, que muitos possuíam em mínima quantidade.

Já que falei na ti Ana Poiares, estou-me a lembrar do seu filho Amândio, que trabalhava no mesmo forno e conseguia equilibrar um tabuleiro de pão á cabeça,  coisa que só as mulheres faziam. Este dedicava-se aos domingos a engraxar sapatos,  levava 1.50 (15 tostões) e era um bom profissional. Posso dizer que com a sua ocupação contribuía para que o Peso fosse uma aldeia onde havia um pouco de tudo. Muitos rapazes dos Vales, Pesinho e Coutada, vinham ao Peso aos domingos, para engraxar os sapatos, por não haver nas suas terras este serviço.

Nestes tempos em que a estrada não  era alcatroada e os caminhos todos poeirentos no verão e lamacentos no inverno, andava-se muito a pé.  A primeira e única  camioneta de carreira que fazia o trajecto entre o Tortosendo e o Barco, começou, creio nos anos 60, saia do Barco pela manhã antes das 7 horas e vinha  pelas 6 horas da tarde.   

III                           

 Ainda me Lembro!!!...das tradições da tecelagem no Peso.

Segundo ouvira  dizer aos meus avós desde tempos antigos que havia no Peso quem se dedica-se á tecelagem de cobertores, lençóis de linho e mantas de âmbito artesanal.

Com o advento das fábricas de lanifícios no Tortosendo, (a Covilhã já ficava longe…naquela época) as  gentes da aldeia começaram a trabalhar na tecelagem, para essas mesmas fábricas, indo buscar as matérias-primas necessárias para depois fazerem o trabalho em casa. Novos teares, (só de um pano) assim lhe chamavam aos teares maiores, foram adquiridos por muitas pessoas da aldeia e assim começava uma nova era para muitos, uma nova vida que lhes garantia o sustento da família.

Assim eram trazidas grandes meadas de fio que depois eram estendidas num grande estendedouro, (ordedouro assim lhe chamavam, a grandes barras de ferro, não tão grandes no tamanho, das balizas do futebol) que iam desde a estrada do Cabouco ao cimo do Carrascal, ao longo do extremo Poente da escola da D. Blandina, assim era conhecida a mesma.

Essas grandes meadas de fio eram (julgo) transformadas em mais pequenas para serem passadas numa dobadeira  para depois serem  transferidas para um “fuso” que seria depois usado na lançadeira do tear. Estes trabalhos secundários eram quase exclusivos das mulheres. Depois do trabalho estar completo o tecido, era levado á fabrica para receberem o pagamento e trazer outro trabalho, (se o houvesse)  . Quem passa-se pelas ruas da aldeia, poderia ouvir o matraquear dos teares a qualquer hora do dia ou da noite. Existia um barracão, assim se chamava uma série de palheiros que iam desde a casa actual do Senhor João Sardinha até á área onde estão os tanques, lavadouros públicos e aí estavam instalados uns quantos teares, 4 ou 5 não posso precisar onde havia sempre gente a trabalhar até altas horas da noite e manhã cedo.

 Era esta a vida de muitos habitantes do Peso, até princípios da década de 1960.

Devo salientar que estas mercadorias eram transportadas ás costas ou em jumentos, (o Ti Zé Aires tinha um burro, rijo e dócil  que era nessa altura como que o táxi da aldeia) – pelo caminho da “Serra”que seguia do cimo dos Vales do Rio, até ao fundo do Cabeço do Tortosendo. Estes teares, instrumentos de trabalho, eram registados num Departamento Governamental, cujo nome não me lembro e lhes garantia um alvará que  mais tarde foram valorizados, pois ao fazer-se a reconversão da industria de lanifícios, de manual  para automática, eram necessário aos industriais de lanifícios, obter três alvarás de teares manuais para um tear eléctrico. E assim foram adquiridos muitos, ou quase todos, a um preço que ia desde os 12 mil escudos aos 20 mil , conforme a procura; uma pequena fortuna nessa época.

 Depois começou a ser ”descoberta”a emigração para França e igualmente com a reconversão dos teares manuais para eléctricos, automáticos como lhe chamavam e assim muitos começaram a deixar a indústria de tecelagem manual. Alguns foram aprender a trabalhar com os novos teares e arranjaram trabalho no Tortosendo e Covilhã, para onde iam todos os dias de bicicleta. Eram notórios os grupos de tecelões que especialmente do Peso, Coutada e Dominguiso, enchiam a estrada, (ainda de maquedame) e se ouviam á distância, falando uns para os outros. Fazendo este trajecto, infelizmente  alguns conterrâneos nossos encontraram a morte na estrada,

Com esta mudança para o progresso iria acabar uma indústria para as aldeias do Rio e não só, pois outras limítrofes como o Teixoso, Aldeia do Carvalho, Sarzedo, Ferro, Peraboa etc., haviam muita gente a trabalhar nesta indústria.                                                   

No caso do Peso, houve outra reconversão: os que não seguiram para França tão depressa, ou já pela idade mais avançada, lançaram mão á tecelagem de mantas de trapos. O Peso chegou a ser a terra com mais gente a trabalhar neste sector artesanal em todo o distrito, ou até talvez em todo o país.

Senão vejamos; a área de domínio das gentes do Peso estendia-se a todo o distrito de Castelo Branco, área de Alcains, a partes do da Guarda, área do Sabugal e Coimbra, como Barroca do Zêzere, Vasco Esteves, Loriga,  etc.                                                

Eu próprio como proprietário do automóvel de aluguer (táxi) da aldeia, na altura percorri todos estes percursos no transporte dessas mantas, em toda a década de 1960 e até à minha emigração em fins de 1973.

De salientar que cada pessoa tinha a suas localidades, que na maioria dos casos era respeitada, não fazendo concorrência uns aos outros.                                               

Com o envelhecimento dos mesmos e a emigração para França, esta actividade foi-se desvanecendo até á sua extinção.    Assim se vira mais uma página da história do Peso.                                                                                                                                                

É pena que não tivesse ficado um pequeno museu com todos os artefactos desta indústria, (tecelagem) para que  as gerações vindouras pudessem apreciar.

IV

Ainda me Lembro!!!

A vinda da electricidade

Por alturas de 1958/59, (?) chegou a electricidade ás aldeias do Rio, desde o Dominguiso ao Barco e isto foi certamente um dos grandes benefícios desta época.

Este melhoramento veio proporcionar como é óbvio um substancial desenvolvimento ás aldeias e uma melhoria nas condições de vida daqueles que podiam instalar a luz eléctrica em casa. Para esses as candeias de azeite ou os candeeiros a petróleo, poderiam já ser coisas do passado. Possibilitou igualmente a mecanização da indústria de panificação na aldeia.

Ouvir-se a rádio era já possível, pagando uma licença anual de 100$00 escudos á então Emissora Nacional. E passados poucos meses, eis que apareceram mesmo os fiscais da Emissora entrando nos estabelecimentos e apanhando os que não tinham essa licença, creio que nenhum a tinha e lembro-me que meu pai foi um dos apanhados. Com a rádio, nas tabernas já poderia haver mais divertimento e informação, tal como o relato dos jogos de futebol.

Lembro-me igualmente que nomeadamente as mulheres, se reuniam em frente da telefonia para ouvirem o” romance”.As tabernas iam-se transformando em cafés (onde café não havia) ficariam a ser tabernas mais civilizadas, pelo menos com cadeiras e mesas, em vês dos tradicionais bancos quadrados de madeira.

O primeiro verdadeiro café a ser aberto no Peso, foi o dos irmãos Arnaldo e António Proença, isto já depois da vinda da Televisão. Todas as noites eram casa cheia, principalmente para a noite de teatro. As emissões começavam da parte da tarde acabava á volta das 11 da noite.

Uma das bebidas mais populares na altura, para os que não bebiam vinho, era uma mistura de gasosa com café (de cevada) que fazia uma espuma mais parecida com cerveja preta. Havia um nome próprio para esta bebida, que não me recordo.

Ainda me lembro que a primeira televisão no Peso, foi dos Irmãos Pires e nos primeiros dias foi posta na varanda do seu estabelecimento no Largo do Chafariz, onde á noite um arraial de gente se reunia para ver a TV.

                                             ~~~~~~~~~~~~~~

Queria recuar um pouco no tempo, para antes da vinda da electricidade.

As primeiras telefonias existentes no Peso, foram as do Sr. Ângelo Morão no Largo do Chafariz, que era proprietário de um dos melhores estabelecimentos de mercearias, retrosaria e fancaria de todas as aldeias do Rio. Aqui vinham muitas pessoas das aldeias vizinhas, abastecerem-se para não irem ao Tortosendo ou Fundão. A outra casa com telefonia era de meu avô, Belarmino Batista.

 Estas eram as únicas casas que tinham electricidade fornecida por um gerador movido a vento e instalado no telhado. As pessoas chamam-lhe “caravelas”.

Ainda me lembro que as pessoas no dia das celebrações de N. Sra. de Fátima, no 13 de Maio, enchiam a sala da casa de meu avô, para ouvirem as reportagens das mesmas. Lembro-me igualmente quando da morte do então Presidente da Republica, Marechal Carmona, se encher a casa de gente, onde eu estava também e ver as pessoas chorar com o relato emocionante e sentimental dado pelo incomparável locutor de então, Artur Agostinho. Recordo-me bem deste acontecimento, por ter chorado também.

Lembro-me igualmente de ir ouvir, muitas vezes sozinho, por alturas da Pascoa, os relatos do hóquei em patins para o campeonato do mundo, transmitidos de Geneve ou Montreaux, na Suíça. Gostava ainda de ouvir o programa dos Companheiros da Alegria no Rádio Clube Português todas as noites, espectáculo musical que na década de 1950/60, percorria Portugal de lés a lés. Igrejas Caeiro e Elvira Velez eram os produtores deste espectáculo, que revelava muitos dos bons artistas/cantores portugueses.

Isto só era possível graças aos geradores a vento.

 

Autoria do Pesense:

Belarmino Batista

Emigrante no Canadá

(Estes textos são publicados no site do Peso, com a devida autorização do autor

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